sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Panela e o Pavor


A sala de espera geralmente não tem nenhum atrativo, é cinza e gelada.
Em geral, uma televisão, algumas revistas e um silêncio sepulcral interrompido vez ou outra por ruídos que chegam a arrepiar a alma.

Para te deixar ainda mais acuado, a figura amiga da secretária, na maioria das vezes é abolida do local. Ou seja, cada um por si e Deus guardando todos.
Ninguém conversa que é para ficar de ouvido atento ao que acontece com quem está sendo atendido, numa tentativa insana de saber o quão terrível está sendo a passagem dela por aquela cadeira.

Nesse momento você já não sente mais dor, mas o medo te assola e um frio corre pela sua espinha, subindo e descendo na velocidade da luz.
Chega sua hora!

O doutor te cumprimenta e pergunta sobre sua vida – tudo soa sarcástico demais.
Você conta a ele o porque está ali, mostra “a panela” que se mudou para a sua boca  e a partir daí começa seu o inferno na cadeira do dentista.

Na sua cabeça soa um mantra maldizendo a bala, doce, carne ou seja lá o que foi que fez o estrago no seu dente, que nesse momento está fechado com um pedaço de algodão porque o seu dentista estava sem tempo para torturar você na semana passada.
O cara te bota um babador no pescoço e te posiciona de cabeça para baixo na cadeira, para começar o ritual. Se pegar fogo no prédio, você morre queimada, porque até conseguir se levantar dali você já virou cinzas.

Sou a favor da obrigatoriedade daquelas vendas pretas que as madames usam para dormir, para o nosso cérebro não processar o tamanho da agulha da anestesia. E ele diz: - Eu vou colocar Xilocaína, você vai sentir só uma picadinha! Ah tá! A picadinha do “calça curta”, “coisa ruim”, dói muuuuuuuuiiitooooo, não sei se porque nesse momento já estamos sentados no braço da cadeira ou se só porque ele pegou a raiz do dente mesmo. Sua cara adormece, mas seu cérebro e ouvidos não.
Uma de suas mãos terá de ficar ocupada (dormente) com o aspirador e vez ou outra você terá de cuspir na pia (nojenta), se levantando daquela posição ingrata, usando só uma das mãos e voltando com metade da baba na sua boca e metade na pia. Senhoooor!!!

É broca, é motor, é massa, uma verdadeira construção civil dentro de você, com uma ópera no fundo, que provavelmente tá tirando a maior onda da sua cara só que em ritmo diferente do funk.
O serviço acaba, ele, o dentista, todo orgulhoso do serviço quer te mostrar como ficou tudo e você só quer sumir dali e parar de morder sua língua.

2 comentários:

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  2. jose vitor lemes27 de abril de 2013 04:46
    Depois dizem que o mundo é perfeito! Se fosse, não nasceria buraco no dente.
    Alias, o dente deveria ter a composição do ouro e a escovação bem que poderia vir de fábrica
    Assim: Terminada a refeição, ocorresse o tempinho da degustação, em seguida houvesse a automatização
    de uma escovação interna sem que fosse preciso escancarar a boca diante dos espelhos, o melhor ainda,
    que possuísse um sensor contra mal hálito.
    Pensando melhor, dente, iguais aos que temos, deveria nascer somente na boca de políticos.

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