quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A idade


Há tempos venho me sentindo estranho...

...já havia percebido que algumas pessoas começaram a se afastar, outras a me criticar com maior frequência e outras tantas a me ignorar.

Ao acordar todas as manhãs eu já não tenho mais aquela disposição, meus dias não são mais tão cheios de compromissos como antes.

No café da manhã tenho preferido o pão de forma ao francês pelo simples fato de estar cansado daquela conversinha fiada do pessoal da padaria e do papo cheio de euforia do Ernesto, meu vizinho.

As festas de aniversário, que tem ficado cada ano menos frequentes, me animam pouco. Os temas das conversas pouco me interessam e os temas por mim propostos pouco interessam aos demais, além disso, não tenho mais criatividade suficiente para escolher um presente adequado para as idades que variam de 1 a 99. Então, por vezes, prefiro ficar em casa mesmo.

Outro dia resolvi ouvir, sem retrucar, o meu filho que decidiu me dar conselhos (veja a que ponto chega essa tal modernidade). Ouvi até o fim, confesso que dei umas cochiladas no meio do sermão, mas tudo aquilo que ele falou, além de não ser novidade para mim, não me afetou. Eu o incomodo, mas isso não me incomoda nem um pouco.

Apesar de poder fazer diferente, ainda vou ao banco pagar minhas contas, ando de ônibus e metrô nos horários de pico e testo todos os dias a educação e o respeito das pessoas por mim.

Dizer que não tenho mais vontade de nada seria muito radical.

Tenho vontade sim, uma vontade imensa de mandar todo mundo a merda. Acabar com aqueles intermináveis almoços de domingo que acabam com a cerveja da minha geladeira e me deixam com a obrigação de comer os restos a semana inteira.

Acabar com a graça de quem dorme no meu sofá, de quem coloca o pé na minha mesinha de centro pra assistir o jogo e da Ofélia, mulher do Ernesto, que insiste em levar copos descartáveis pro almoço, que é pra não ter que lavar depois.
Por fim, descobri um lugar onde gosto de ir...

... à farmácia. Tenho comprado um remédio por vez e ainda dou uma passada por lá sempre que preciso de um sabonete, adoçante ou pastilhas para amenizar o mau hálito.

Não, não estou depressivo, nem de mau-humor, nem puto...

 ...estou na terceira idade.

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