quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O alemão...


Acho que cheguei na parte ideal da vida.

Hoje em dia eu consigo abstrair o meu espírito das conversas que não me interessam.

Dou a impressão de ser louca quando me calo às perguntas sobre assuntos absurdamente chatos, dos quais todos já conhecem a minha opinião.

Nos almoços de família, quando já não suporto mais a falsidade das mesmas conversas de uma vida toda, solto um: “Mais que saco, heim!”. Todos caem na gargalhada, inclusive eu, só que rio da cara deles – babacas.

Outro dia em um passeio no parque, amarrada à coleira da enfermeira, que agora tenho que andar a tiracolo, atirei uma pequena pedra no pato, coloquei, sem querer, o pé na frente de um patinador e chamei uma moçoila de gorda quando a vi comprando um picolé.

Nunca me senti tão bem.

Tenho estado em plena forma, minha saúde é muito boa e não tenho mais preocupações com nada.

Não tenho animais de estimação, eles sempre me irritaram um pouco e minhas plantas nunca mais floresceram como antes. Nunca vi ter que conversar com planta pra ela ficar formosa e dar lindas flores. Comigo ninguém nunca gastou esse tempo e tive que crescer, dar flores e frutos sem conversinha fiada.

O meu hobby favorito hoje em dia é dormir em qualquer lugar, na frente de qualquer um, seja lá qual for o assunto em pauta.

Choro sempre que tenho vontade, não seguro mais meus gases para um momento apropriado, coloco roupas sociais para ficar em casa e saio à rua de camisola quase que diariamente.

Não preciso ser simpática com vendedores, nem com conhecidos de longa data, nem com meu próprio marido.

Hoje, depois de tanto tempo, consigo ser quem realmente sou.

E devo tudo isso ao Alzheimer.

3 comentários:

  1. Mais um otimo texto So, quero ler textos novos ta, bjs.

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  2. Somos nômades, Levamos aos ombros a construção da vida, estacamos memórias, enchemos as aljavas de histórias, e seguimos de porto em porto até que as ondas se cansem e o mar não se abra mais… Então sim, saberemos o nome da nossa nação, seja ela Alemão, Alzheimer, Iraquianos, depressão…
    — Daqui o que sabemos é o dissabor, é o telefone que nos alardeia de reclamações; é o aviso dos Maias: “o mundo vai acabar.” É o placar que favorece o time que mais aborrece. É o feijão que não dá caldo; o grunhido do gato, o arroz unido, e sobre tudo as retaliações…
    “Mas que saco em heim!”

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  3. Sempre muito oportuno, José Vitor.

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