Acho que cheguei na parte ideal da vida.
Hoje em dia eu consigo abstrair o meu espírito das conversas
que não me interessam.
Dou a impressão de ser louca quando me calo às perguntas
sobre assuntos absurdamente chatos, dos quais todos já conhecem a minha opinião.
Nos almoços de família, quando já não suporto mais a
falsidade das mesmas conversas de uma vida toda, solto um: “Mais que saco,
heim!”. Todos caem na gargalhada, inclusive eu, só que rio da cara deles –
babacas.
Outro dia em um passeio no parque, amarrada à coleira da
enfermeira, que agora tenho que andar a tiracolo, atirei uma pequena pedra no
pato, coloquei, sem querer, o pé na frente de um patinador e chamei uma moçoila
de gorda quando a vi comprando um picolé.
Nunca me senti tão bem.
Tenho estado em plena forma, minha saúde é muito boa e não
tenho mais preocupações com nada.
Não tenho animais de estimação, eles sempre me irritaram um
pouco e minhas plantas nunca mais floresceram como antes. Nunca vi ter que
conversar com planta pra ela ficar formosa e dar lindas flores. Comigo ninguém
nunca gastou esse tempo e tive que crescer, dar flores e frutos sem conversinha
fiada.
O meu hobby favorito hoje em dia é dormir em qualquer lugar,
na frente de qualquer um, seja lá qual for o assunto em pauta.
Choro sempre que tenho vontade, não seguro mais meus gases
para um momento apropriado, coloco roupas sociais para ficar em casa e saio à
rua de camisola quase que diariamente.
Não preciso ser simpática com vendedores, nem com conhecidos
de longa data, nem com meu próprio marido.
Hoje, depois de tanto tempo, consigo ser quem realmente sou.
E devo tudo isso ao Alzheimer.